Herdeiros do Campo capacita famílias a planejarem o futuro

Curso une gerações para traçar estratégia de sucessão familiar e garantir atividades agrícolas a longo prazo


Simone, Erineu, Carla Carolina e Aracéli Caldato: conhecimento abre canal de diálogo para planejar sucessão


O agricultor Erineu Caldato, 63 anos, vive desde que nasceu em uma propriedade rural da família em Pato Branco, no Sudoeste do Paraná. Foi nela que construiu sua vida ao lado de Vilma Caldato, 61 anos, e também foi onde o casal criou as três filhas: Aracéli, 38 anos, Simone, 33 anos, e Carla Carolina, 25 anos. Mas isso só foi possível porque, ainda em vida, o pai de Erineu cedeu uma parte da terra e orientou de perto como ele e os irmãos deveriam agir para retirar do solo os seus sustentos. “A gente trabalhava junto com o meu pai na lavoura. Víamos todo o processo dele no manuseio da terra. Com toda a certeza ele nos instruiu. Vimos como ele fazia os procedimentos e mais tarde, quando herdamos a propriedade, seguimos essas orientações e conseguimos ampliar a área com nosso trabalho”, conta o produtor rural, que hoje cultiva 260 hectares de lavouras de grãos no município. Apesar de ter vivenciado um processo bem-sucedido de sucessão no passado, a passagem do bastão de Erineu e Vilma para as filhas até então sempre tinha sido deixado de lado. As três fizeram faculdade, têm seus empregos na cidade e a vida seguia seu curso. Mas, recentemente, o curso Herdeiros do Campo abriu a mente de toda a família para a importância de se definir os caminhos da sucessão na propriedade para que isso não se torne um problema no longo prazo. “Algumas coisas estávamos deixando de lado, mas com o curso nós percebemos que se ficasse assim os herdeiros teriam dificuldade mais tarde. Temos que antecipar as coisas que os sucessores venham a assumir”, relata Erineu.

“Durante o curso já trouxemos elas para junto de nós, mostramos os quatro cantos da propriedade, os limites, como funciona, como elas devem proceder no futuro e usufruir da propriedade”,

completa.

A família levou tão a sério o curso, que as três filhas foram junto com o pai às aulas semanais. Aracéli Caldato, a irmã mais velha, diz que participar do Herdeiros do Campo abriu a mente deles ao diálogo. “O meu pai é bastante jovem. A princípio tínhamos a noção de que não havia necessidade de tratar sobre isso. No curso nós vimos que o conceito é justamente o contrário. Quanto antes conseguir trocar ideia, conversar, ter experiências, melhor”, enfatiza. Participar do curso, segundo Aracéli, foi transformar o afeto pelo lugar que cresceram em entusiasmo sobre o que o espaço significa para a família. “Hoje, estamos 100% mais empolgadas com relação aos assuntos da fazenda. É bom ver e saber como está funcionando. Lógico que meu pai vai administrar, ninguém quer nada diferente disso. Ele tem muita experiência sobre negócios, passa conselhos com relação a isso e agora nós temos abertura de levar conhecimento de novas tecnologias a ele”, explica.

Diálogo

Esse “canal” para tratar do assunto abertamente dentro da família também foi um dos benefícios mais evidentes para a instrutora do SENAR-PR Francieli Grings, 31 anos, de Pitanga, no Centro-Sul do Paraná. Ela participou como aluna do Herdeiros do Campo junto com a mãe, Renilda Schmidt Grings, 63 anos. A família tem uma propriedade de 24 hectares, utilizados para a produção de leite no município. “Sentar e conversar sobre esse assunto sempre foi difícil, pois um sempre está fazendo uma coisa ou outra, não consegue achar tempo para conversar. Isso precisa ser agendado. É algo importante, mas nunca tinha acontecido. A intenção agora, depois do curso, é mudar, fazer esses encontros mais vezes e buscar traçar um caminho para a sucessão familiar acontecer”, relata Francieli, que também contou que a mãe ficou bastante motivada com o curso, por se sentir mais inserida dentro das coisas da propriedade. Segundo Francieli, a formação a deixou mais tranquila com relação ao futuro da propriedade da família. “Algumas janelas se abriram, a gente começa a enxergar novas oportunidades, são mudanças. Eu acredito que ele venha para mudar muitas vidas, porque tem muita propriedade que passa pela mesma situação que a da nossa família, que é a falta de arrumar tempo para conversar e tomar decisões sobre o futuro”, diz.

 

 

O curso

O objetivo do Herdeiros do Campo é despertar a família rural para o planejamento sucessório, considerando as dimensões família, empresa (negócio) e propriedade (patrimônio). A intenção é que a família saia do programa agindo de forma sinérgica no ambiente de casa para implantação de um plano de ação que norteie a sucessão familiar. São 42 horas de aulas, com cinco encontros de oito horas cada e mais uma orientação de duas horas por família. É preciso que participem no mínimo duas e no máximo quatro pessoas por família, de modo a formar grupos entre 20 e 30 pessoas. A idade mínima para ingressar é 15 anos e sempre é obrigatória a participação de pelo menos duas gerações (pai e filho, por exemplo). Entre os principais conteúdos estão: sucessão e governança, visão estratégica, a empresa rural e seus cená- rios, mediação de conflitos e a construção da confiança, o aprendizado e a prática, e orientação do plano de ação. Este último consiste em aplicar todas as habilidades desenvolvidas durante a formação para gerar um projeto de efeito prático dentro das propriedades em relação à sucessão.

“Não há receita pronta. O tema é complexo e não se resolve com um documento, que é só uma parte de um processo sucessório satisfatório. O que o SENAR-PR quer é levar informações aos produtores, para permitir que olhem para dentro de sua família, para as questões jurídicas (patrimônio) e para o negócio (empresa, gestão). Somente dessa forma teremos uma sucessão tranquila e consequentemente um agronegócio cada vez mais forte e profissionalizado”, diz a coordenadora técnica do programa e técnica do SENAR-PR, Luciana Matsuguma.

Sucessão em números

De acordo com o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010, um total de 7,8 milhões de jovens (de 15 a 29 anos) vivia no campo, no Brasil. O número representava pouco menos de um quarto da população rural total do país (29,8 milhões de habitantes). A estimativa é que dos 5,2 milhões de estabelecimentos rurais onde vivem essas pessoas no país, 1,5 milhão (quase um terço) foram obtidos por herança. No Paraná, no último Censo foram contadas 10,4 milhões de pessoas no Estado, sendo 1,5 milhão com residência no campo (14%). Ao todo, viviam na zona rural nessa época 362,7 mil jovens entre 15 e 29 anos (23% do total da população rural paranaense).