Preparando os sucessores

Programa Herdeiros do Campo tem o objetivo de despertar nas famílias a importância do planejamento sucessório no tripé propriedade, família e empresa



Maíra, 22 anos, Aparecida, 57, Francisco, 21, e Aparecido, 53, estão entre os participantes do Programa Herdeiros do Campo, que foi realizado em cinco módulos no auditório do Sindicato Rural Patronal de Londrina, por meio do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). Eles integram a família Frederico-Magro, que se prepara para fazer com muita calma e equilíbrio a sucessão na propriedade rural.
A sucessão familiar rural é um dos maiores desafios que as famílias vêm enfrentando nos últimos anos, mas ela pode ser bem conduzida se houver um planejamento adequado. O objetivo do curso é propiciar esta discussão com as famílias de agricultores para a preparação dos filhos e netos para assumir o gerenciamento da propriedade rural.

 

A proposta é que herdeiros e sucessores passem a ter intimidade com aspectos jurídicos que envolvem a sucessão no campo e compreendam a visão estratégica de uma empresa rural e as especificações do setor agropecuário. Ao final do curso, a família sairá com um plano de ação que irá orientar a sucessão familiar na empresa.

 

“Queremos despertar nas famílias a importância do planejamento sucessório no tripé propriedade, família e empresa”,

diz o instrutor do programa Herdeiros do Campo, Gumercindo Fernandes da Silva Júnior. Segundo ele, durante os encontros são abordados vários temas, desde visão estratégica, custos de produção até mediação de conflitos.

 

 

Para Fernandes, a dificuldade de falar em sucessão familiar no nosso País remonta a própria história cultural que vem do patriarcalismo e patrimonialismo, onde o patriarca é centralizador e não passa o bastão. “No meio rural isto é mais forte ainda, porque tem o viés do machismo quando a filha mulher é a sucessora. Não é raro também a família ter um herdeiro, mas não ter um sucessor. Herdeiro é todo aquele que nasce no seio daquela família, já o sucessor nem sempre. O sucessor depende da habilidade, do gostar do que a família faz e de buscar se profissionalizar na atividade”, explica.

Para o instrutor, o êxodo de jovens que estão deixando o campo está ligado à formação cultural. “Muitas vezes ouvimos os avós e pais dizerem aos filhos: estuda para ter algo melhor na vida, não valorizando o que é da família. Isto gera no inconsciente da pessoa que aquilo que a sua família faz não é bom. E a pessoa é levada a procurar uma profissão fora e nem olha o que a família faz como negócio”, diz Fernandes, plagiando um antigo ditado dos antigos: “Antes diziam, vai estudar pra não ficar na roça. Agora é: se não estudar não fica na roça. Reconhecer quem gosta da atividade dentro da família e se profissionalizar para desenvolvê-la com prazer como faziam os pioneiros é um desafio permanente”, resume.
Também são instrutores do curso Marcia dos Santos Eiras, Thiago Eiras Fernandes da Silva e Kátia Regina Mathias Gomes.

 

 

 

 

 

Longevidade

Para o presidente do Sindicato Rural Patronal de Londrina, Narciso Pissinati, o Programa Herdeiros do Campo é bastante abrangente, pois além dos aspectos técnicos e jurídicos que apresenta, a iniciativa discute o êxodo no campo, principalmente de jovens que vêm estudar na cidade.
“O quanto antes a família sentar pra conversar sobre este assunto e se planejar, haverá mais chances da sucessão dar certo e a propriedade ter longevidade”, afirma Pissinati, que considera o programa uma excelente iniciativa em parceria com o Senar e que sempre terá o apoio do Sindicato Rural.

 

Energia e tradição lado a lado

A família Frederico- Magro é proprietária dos Sítios Reunidos Santo Antônio, que somam quase 200 alqueires na Zona Sul de Londrina, região da Aviação Velha. O patriarca Francisco Frederico, hoje com 92 anos, comprou o primeiro sítio na região no final da década de 1960 e aos poucos foi adquirindo áreas vizinhas. Começou com café, depois veio o gado leiteiro e hoje o foco são grãos.

 

Francisco e a esposa Lourdes Bichere Frederico (já falecida) tiveram três filhos: Francisco, 60, Aparecida, 57, e Izabel, 50. As duas irmãs casaram-se com dois irmãos, oriundos da família Magro, que vivia na mesma região. E assim o clã foi se expandindo: Izabel e Aparecido, 53, são pais de Francisco, 21, e Bárbara, 25; e Aparecida e José Antônio, 63, tiveram Maíra, 21, e Raíssa.

 

Como o primogênito de seu Francisco e dona Lourdes nasceu com necessidades especiais, quem começou a seguir os passos do pai nos negócios foi a caçula Izabel. E até hoje é ela quem está na linha de frente da parte administrativa das propriedades. Devido à idade avançada, o patriarca já não atua mais na propriedade. Mas pede para os familiares que mantenham alguns alqueires de café, sua paixão.

 

“Eu não tinha 18 anos quando meu pai me chamou pra ajudá-lo. Com exceção de plantar e colher, sempre fiz de tudo. Até a escrita do IR eu faço. Meu pai foi um grande administrador e eu aprendi tudo com ele, sempre foi muito guerreiro. Isso tudo, com certeza, eu herdei dele”, conta Izabel, que desistiu do sonho de ser veterinária por falta de tempo, formou-se em Educação Artística, mas nunca deixou a administração dos negócios da família.

 

O interesse dos Frederico-Magro é preparar a sucessão e por isso buscaram o curso Herdeiros do Campo. “Está sendo muito bom para nós (pais) e para eles (filhos). Sabemos que a sucessão é um processo longo, mas como nossos filhos nasceram no campo e vivenciaram todos os conflitos, acredito que isso aconteça com naturalidade”, diz Aparecida, que fez o curso junto com a filha Maíra.

 

“Os novos têm a força, a energia, e os mais velhos, a sabedoria, a tradição. É uma relação de interdependência”, completa Maíra, que cursa Administração de Empresas e pretende levar os conceitos da academia para o campo.

Aparecido, que participou do curso com o filho Francisco, acredita que é preciso formar os sucessores para a atividade agrícola não morrer. “Já estávamos iniciando esse processo na família e quando vimos o anúncio do curso ficamos encantados”, afirma. “Comecei cedo na produção e aprendi tudo com meu pai e com meu tio. Agora, dou minha contribuição a eles com ideias sobre compras de maquinários com novas tecnologias”, conta Francisco, que começou a cursar Agronomia, mas não concluiu, por preferir investir o tempo no trabalho.